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10/6/2021 10:54

Bolsonaro agiu diretamente em favor de dois empresários aliados, junto ao governo da Índia para acelerar recebimento de insumos para hidroxicloroquina

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2052 visitas - Fonte: O Globo

BRASÍLIA — O presidente Jair Bolsonaro atuou diretamente em favor de duas empresas privadas solicitando ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em abril do ano passado que acelerasse a exportação de insumos para a fabricação de hidroxicloroquina, medicamento comprovadamente ineficaz contra a Covid-19. Um telegrama secreto do Ministério das Relações Exteriores em posse da CPI da Covid no Senado e obtido pelo GLOBO contém a transcrição do telefonema feito por Bolsonaro no qual o presidente cita nominalmente as empresas EMS e Apsen ao pedir que a Índia liberasse a exportação dos produtos. Senadores da comissão avaliam que a ligação é prova importante do envolvimento pessoal do presidente com o fornecimento para o Brasil do remédio sem eficácia.



As duas empresas beneficiadas diretamente pela atuação são comandadas por empresários que têm relações com o bolsonarismo. O presidente da Apsen, Renato Spallicci, é um apoiador de Bolsonaro. Ele declarou voto no atual presidente em 2018 e tinha várias postagens nas suas redes sociais com ataques a seus adversários e defesa do governo. Ontem, ele foi convocado a prestar depoimento na CPI da Covid. O CEO da EMS, Carlos Sanchez, já foi recebido por Bolsonaro para reuniões no Palácio do Planalto e participou recentemente de jantar com empresários realizado em São Paulo no qual o presidente foi ovacionado.

Procuradas, tanto a Apsen quanto a EMS afirmam que têm relação apenas institucional com o governo brasileiro.

A ligação foi feita para Modi no dia 4 de abril e divulgada nas redes sociais do presidente brasileiro, que postou uma foto na qual está ao lado do então chanceler Ernesto Araújo. No dia 9, Bolsonaro fez outra publicação agradecendo ao primeiro-ministro indiano pela liberação. A Índia tinha suspendido em março a exportação de vários insumos devido à pandemia.



Nas postagens públicas, no entanto, o presidente brasileiro não revelou que o pedido envolvia empresas privadas. O telegrama obtido pelo GLOBO, classificado como “secreto” e “urgentíssimo”, revela que o presidente citou diretamente as empresas ao solicitar a liberação.

Bolsonaro começa a ligação deixando claro que o objetivo era obter os insumos para fabricar a hidroxicloroquina com o intuito de usar o medicamento para o combate à Covid-19, apesar de a bula do remédio prever o uso apenas para malária, lupus e artrite reumatoide — e com prescrição médica.

“Entrarei diretamente no assunto. Embora não haja, por ora, divulgação oficial, temos tido resultados animadores no uso de hidroxicloroquina para o tratamento de pacientes com a COVID-19. Gostaria, por isso, em nome do governo brasileiro, de fazer um apelo ao amigo Narendra Modi para que obtenhamos a liberação de importações de sulfato de hidroxicloroquina feitas por empresas brasileiras”, disse Bolsonaro, de acordo com a transcrição feita pelo Itamaraty.



Sem citar quais fontes embasariam os “resultados animadores”, o presidente cita as empresas que têm a importação retida na Índia.

“O sucesso da hidroxicloroquina para tratar a Covid-19 nos faz ter muito interesse nessa remessa indiana. Estou informado de que um carregamento de 530 quilos de sulfato de hidroxicloroquina está parado na Índia, à espera de liberação por parte do governo indiano. Esse carregamento inicial de 530 quilos é parte de uma encomenda maior, e foi comprado pela EMS”, afirmou Bolsonaro.

O presidente prosseguiu: “Adianto haver, também, mais carregamentos destinados a uma outra empresa brasileira, a Apsen. Este, como eu dizia, é um apelo humanitário que submetemos a nosso prezado amigo Narendra Modi, e que, se atendido, poderá salvar muitas vidas no Brasil.”



A interferência do presidente na negociação tinha sido confirmada por Araújo em seu depoimento à CPI da Covid, que tem a fabricação, a distribuição e incentivo ao uso de medicamentos sem eficácia comprovada como um dos focos de sua investigação.










Maior fabricante

A Apsen é a maior fabricante de hidroxicloroquina do Brasil e recebeu R$ 20 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 2020, de um total de R$ 153 milhões que receberá por dois contratos assinados em 2019, como revelou o jornal “Folha de S. Paulo”. O valor é sete vezes maior do que o crédito liberado para a empresa nos 16 anos anteriores. Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, a empresa triplicou, em abril do ano passado, a produção de Reuquinol, à base da substância.

Já o presidente da EMS, Carlos Sanchez, circula com facilidade no meio político. Neste ano, além de evento com Bolsonaro, esteve também em um jantar com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). A empresa tem na fabricação de medicamentos genéricos a sua atuação mais destacada.



Na conversa telefônica com Bolsonaro, o primeiro-ministro indiano prometeu fazer “todo o possível” para atender o pleito apresentado.

“Dedicaremos, certamente, cuidadosa atenção ao pedido do Brasil, ao mesmo tempo em que concluímos a avaliação de nossos estoques e definimos as necessidades internas de produção. Instruirei os funcionários do governo indiano a manter estreito contato com suas contrapartes brasileiras”.

Bolsonaro, então, reforçou o pedido pelas empresas brasileiras: “Espero que esse carregamento inicial de 530 quilos possa ser confirmado — isso já nos traria bastante alívio. Aguardaremos a decisão do governo indiano. Estou seguro de que o senhor também considerará com a melhor boa vontade a liberação do restante das encomendas para o Brasil”.



“Dentro das normas”

Em nota, a Apsen afirmou que “todas as interações da companhia em âmbito governamental se dão por meios legais e dentro das normas estabelecidas pelo setor”. A empresa diz ainda não ter havido “contato direto” com Bolsonaro.

“A Apsen é uma empresa apartidária e não apoia ou financia nenhum partido ou figura política. Seus executivos não têm vínculos pessoais ou profissionais com o atual presidente da República”.

A EMS disse que “solicitou diretamente ao fornecedor da Índia matéria-prima para a produção de hidroxicloroquina destinada ao seu uso em bula (lúpus, artrite reumatoide e malária)”. A empresa diz que fez o pagamento antecipado e que ouviu do fornecedor que por este motivo os insumos seriam embarcados, o que efetivamente ocorreu após a Índia autorizar o funcionamento parcial de seus aeroportos. Afirma ainda manter relacionamento “institucional” com o governo.



“O relacionamento da EMS com governos, em todas as esferas, é institucional. A empresa tem se esforçado para produzir medicamentos no país solicitando matéria-prima no exterior. O objetivo é garantir o acesso da população brasileira aos produtos que são fabricados pela empresa para as indicações em bula”, diz a EMS.

O GLOBO procurou a Secretaria de Comunicação da Presidência e o Itamaraty, mas não houve resposta.

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