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5/5/2021 19:45

Uberaba (MG) sofre com a pandemia descontrolada e Arcebispo e Padres pedem lockdown rigoroso

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4356 visitas - Fonte: Revista Fórum

O Arcebispo Metropolitano de Uberaba (MG), Dom Paulo Mendes Peixoto, divulgou na noite desta terça-feira (4) um um manifesto em que cobra do poder público um “lockdown rigoroso” na cidade, que vive uma situação de descontrole da pandemia do coronavírus.



O “Manifesto Em Defesa da Vida”, que também é assinado por padres da cidade, é destacada a situação crítica pela qual passa o município, que em abril registrou recorde no número de mortes e casos confirmados de Covid-19. O documento público da Arquidiocese de Uberaba vem após os recentes óbitos de quatro padres em decorrência da doença. Ao todo, o município, que está com seu sistema de saúde sobrecarregado, contabiliza 801 mortes e mais de 24 mil casos positivos de coronavírus.

“Nós, Arcebispo Metropolitano e padres da cidade de Uberaba, motivados pela exigência da fé e da nossa missão evangelizadora, dirigimo-nos ao Poder Público Municipal – Executivo, Legislativo e Judiciário –, bem como aos cidadãos e cidadãs uberabenses, para manifestar nossa preocupação, indignação e propostas frente ao cenário de dor, marcado pelo agravamento da pandemia do novo coronavírus, em nossa cidade”, diz um trecho do manifesto.



“O elevado número de óbitos e de pessoas testadas com resultados positivos nos últimos dias, a possibilidade de colapso no sistema de saúde, a crise social e econômica… confirmam que estamos vivendo o pior momento da pandemia, em Uberaba. Diante desse cenário sem precedentes, observamos, estarrecidos, o negacionismo genocida generalizado, a irresponsabilidade de grande parcela da população em relação às orientações para impedir a circulação do vírus, a morosidade da vacinação, a omissão de lideranças em relação aos mais pobres e vulneráveis, roubados em sua dignidade”, continuam os religiosos.

Apesar da gravidade da situação, a prefeita do município, Elisa Araújo (Solidariedade), renovou nesta terça-feira (4) o decreto que trata das medidas de contenção da disseminação do vírus sem impor novas restrições. Atualmente, as regras estão bem flexíveis e bares e restaurantes, por exemplo, estão podendo funcionar todos os dias, até às 20h, inclusive com a permissão para música ao vivo. Além disso, a mandatária municipal, em março, chegou a anunciar que a prefeitura ofereceria medicamentos do chamado “tratamento precoce”, defendido por Jair Bolsonaro, a quem quisesse, mesmo diante do fato de que especialistas e a Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomendam a prática.



Diante deste cenário, o arcebispo e os padres de Uberaba pedem para que a prefeitura implante medidas mais restritivas. “Não é hora de flexibilizar, mas de reforçar as medidas que auxiliem o controle da situação. Ainda que impopulares, buscar, com lucidez, estratégias corajosas e corretas, embasadas na ciência e na solidariedade”, afirmam.

Entre as propostas da arquidiocese, estão, além do lockdown, auxílio emergencial suficiente à população pobre, renda mínima aos proprietários e funcionários das pequenas e médias empresas, fiscalização mais efetiva com multas e cobranças das mesmas, rapidez no processo de imunização, além de audiências públicas em busca de soluções para a crise.

Até o momento a prefeitura de Uberaba não se pronunciou sobre o manifesto dos religiosos. Confira, abaixo, a íntegra.



MANIFESTO EM DEFESA DA VIDA

Dom Paulo Mendes Peixoto e padres da cidade de Uberaba

“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” – Lc 10,33-34

Nós, Arcebispo Metropolitano e padres da cidade de Uberaba, motivados pela exigência da fé e da nossa missão evangelizadora, dirigimo-nos ao Poder Público Municipal – Executivo, Legislativo e Judiciário –, bem como aos cidadãos e cidadãs uberabenses, para manifestar nossa preocupação, indignação e propostas frente ao cenário de dor, marcado pelo agravamento da pandemia do novo coronavírus, em nossa cidade.

Inicialmente, prestamos nossa homenagem aos aproximados 800 mortos pela COVID-19, em Uberaba. Às queridas famílias dessas vítimas dirigimos uma palavra de solidariedade, extensiva aos nossos irmãos e irmãs enfermos e desempregados. Apresentamos nossa gratidão sincera aos que se encontram nas chamadas “linhas de frente”, arriscando-se para salvar vidas.

O elevado número de óbitos e de pessoas testadas com resultados positivos nos últimos dias, a possibilidade de colapso no sistema de saúde, a crise social e econômica… confirmam que estamos vivendo o pior momento da pandemia, em Uberaba. Diante desse cenário sem precedentes, observamos, estarrecidos, o negacionismo genocida generalizado, a irresponsabilidade de grande parcela da população em relação às orientações para impedir a circulação do vírus, a morosidade da vacinação, a omissão de lideranças em relação aos mais pobres e vulneráveis, roubados em sua dignidade.



Sabemos que a responsabilidade é de todos, sobretudo de quem tem a missão primordial de cuidar da vida do povo e zelar pelo bem comum. Por isso, “não é justo jogar o ônus da imensa crise nos ombros dos mais pobres e dos trabalhadores”, assim nos adverte o Pacto pela Vida e pelo Brasil.

Como discípulos-missionários d’Aquele que abraçou radicalmente a luta pela vida (“Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância”: Jo 10,10) com a tarefa de prosseguir a sua missão humanizadora (“Eu vos envio”: Jo 20,21), queremos contribuir para a mudança desse cenário.

Considerando tal realidade desafiadora, não é hora de flexibilizar, mas de reforçar as medidas que auxiliem o controle da situação. Ainda que impopulares, buscar, com lucidez, estratégias corajosas e corretas, embasadas na ciência e na solidariedade. Assim, propomos:

Planejamento claro das ações do Executivo Municipal, acompanhado pelo Legislativo e Judiciário, incluindo lockdown rigoroso, coordenado e acordado entre municípios da região; auxílio emergencial suficiente à população pobre e renda mínima aos proprietários e funcionários das pequenas e médias empresas, pelo tempo necessário; incremento geral à economia; fiscalização mais efetiva com multas e cobranças das mesmas; rapidez no processo de imunização e maior descentralização de espaços para tal; audiências públicas em busca de soluções. À sociedade, advertimos sobre o risco da automedicação; sobre a necessidade da observância atenta aos protocolos de prevenção à COVID (usar máscara, higienizar as mãos, evitar aglomeração…) e outras iniciativas que ajudem a superar essa crise.



Em meio a tanta “escuridão”, descobrimos fortes sinais de esperança: profissionais e servidores de “linhas de frente” arriscando-se para salvar vidas; ações solidárias e gestos de cuidado; a vacinação, sinalizando para o controle da pandemia; o número de atendidos e recuperados; o Pacto pela Vida e pelo Brasil… Somando-se a isso, o espaço fecundo das comunidades de fé, de onde brotam numerosos gestos de partilha, de conscientização e de cuidado.

Por fim, conclamamos toda a sociedade a assumir uma luta coletiva em favor da vida. A crise é oportunidade de mudar para melhor, como nos assegura o Papa Francisco. Então, queremos sair dela mais humanizados. E, no futuro, ouvir a leitura dos nossos nomes, escritos na página dos que permaneceram, não do lado dos que se omitiram, mas dos que cuidaram, ampararam e defenderam a vida.

“Ainda há esperança porque a história não terminou” (Mons. Juvenal Arduini).

Uberaba – MG, 04 de maio de 2021.

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