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18/1/2021 08:16

Brasil pode se tornar vilão do governo Biden com atual política ambiental

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963 visitas - Fonte: UOL

O novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tomará posse no próximo dia 20 com a promessa de reverter várias das políticas de Donald Trump. A principal delas será a ambiental, justamente o tema que coloca o governo de Jair Bolsonaro em choque direto com o futuro governo democrata.



Durante os debates presidenciais, Biden mostrava que não concorda com a atual política ambiental brasileira. Em um deles, chegou a prometer US$ 20 bilhões para proteger a Amazônia e ameaçou o Brasil com retaliações. A fala foi imediatamente respondida por Bolsonaro, que disse não aceitar "subornos".

Assistimos há pouco aí um grande candidato à chefia de Estado dizer que, se eu não apagar o fogo da Amazônia, ele levanta barreiras comerciais contra o Brasil. E como é que podemos fazer frente a tudo isso? Apenas a diplomacia não dá, não é, Ernesto [Araújo, chanceler]? Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão, não funciona.



Porém, segundo especialistas em relações internacionais ouvidos pelo UOL, uma política ambiental em que há negação do aquecimento global e vista grossa para queimadas e desmatamentos pode, de fato, fazer os Estados Unidos considerarem o Brasil como um vilão, o que teria um forte apelo entre o eleitorado democrata.

"Isso é uma pauta que agrada as elites norte-americanas’’, explica o professor Pedro Feliú, de relações internacionais da USP (Universidade de São Paulo). "É um resultado fácil de ele [Biden] obter, porque ele pressiona o Brasil. Se der certo, ele traz o troféu para casa e fala: ’Eu mudei o comportamento do Brasil na Amazônia, o que é fundamental para o mundo’."


Se o Brasil não se comportar, o troféu para casa vai ser um endurecimento das relações com o país desmatador. E aí o Brasil pode ser o grande troféu norte-americano.
Pedro Feliú, professor de relações internacionais da USP

Outro sinal de que o Brasil não terá vida fácil com o novo governo é o nome que Biden escolheu para lidar com os assuntos da América Latina. Juan Gonzalez é um crítico da agenda ambiental de Bolsonaro.

Em qualquer relacionamento que Biden tenha com líderes ao redor do mundo, a mudança climática estará no topo dessa agenda, e isso inclui o Brasil.
Juan Gonzalez em entrevista ao Washington Post em outubro



No mesmo mês, ele escreveu no Twitter: "Qualquer pessoa, no Brasil ou qualquer outro lugar, que pensa que pode promover um relacionamento ambicioso com os Estados Unidos enquanto ignora questões importantes, como mudança climática, democracia e direitos humanos, claramente não tem ouvido Joe Biden durante a campanha".



Além disso, o coordenador do curso de relações internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Eduardo Mello, lembra que o governo brasileiro terá mais um agravante no próximo governo americano: ambas as Casas Legislativas terão maioria democrata.



Eles já dominavam a Câmara desde a eleição de meio de mandato de 2018. Mais de uma vez os democratas na Casa tentaram pressionar o Brasil na agenda ambiental. Nas eleições em janeiro, o partido também conquistou o Senado.

A área ambiental vai ser importantíssima para os democratas nesta legislatura. Nos próximos dois anos, que é quando vai acontecer a próxima eleição nos Estados Unidos [para o Legislativo], o tema ambiental vai estar na frente, e o Brasil pode ser visto como um vilão.
Eduardo Mello, coordenador do curso de relações internacionais da FGV

A questão agora é sobre como será o comportamento do governo brasileiro em relação à sua política externa. Como já mostrou o UOL, caso o Brasil opte por tentar um relacionamento amigável com o governo Biden, uma troca de chanceler e também de ministro do Meio Ambiente seria vista como um sinal positivo.



"Tudo vai depender da atitude do Brasil. Mantendo constante essa postura trumpista, negacionista e desmatadora, eu acho que certamente vai entrar negativamente na agenda norte-americana e vai isolar o Brasil", diz Pedro Feliú.

Cenário internacional desfavorável para o Brasil
Em um cenário em que os Estados Unidos de fato escolham o Brasil para ser seu grande vilão, a única outra potência que sobraria para ter relações amigáveis seria a China. Porém, as relações com o país asiático já estão desgastadas há um tempo, devido a constantes ataques de políticos brasileiros ao país comunista.

O próprio chanceler brasileiro mais de uma vez associou o novo coronavírus a uma tentativa de controle por parte do país asiático. Segundo especialistas, isso não só arranha o bom relacionamento com um parceiro essencial do Brasil.



"Ironicamente quem não está nem aí para nada disso [questão ambiental] é a China. Só que ideologicamente escolheram a China como pretensa inimiga, ameaça comunista. E aí você esgotou as opções [de parcerias]", diz Feliú.

Por outro lado, é possível que a China veja no isolamento brasileiro uma oportunidade de avançar suas pautas. "A China pode tentar se aproveitar deste momento para tentar avançar algumas pautas, como a questão do 5G", diz o professor da FGV Guilherme Casarões.

O 5G é uma das questões mais delicadas nas relações entre EUA e China. A Huawei foi banida do país americano sob a acusação de representar uma ameaça à segurança nacional. Outros países aliados dos EUA também já negaram o serviço. O Brasil participará neste ano do megaleilão do 5G que terá a participação da empresa chinesa.

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