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20/11/2020 18:04

Pesquisa PoderData: 81% veem racismo no Brasil, mas só 34% admitem preconceito contra negros

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1575 visitas - Fonte: Poder 360

Pesquisa PoderData mostra que 81% dos brasileiros dizem haver preconceito contra negros no Brasil por causa da cor da pele. Para 13% da população, o racismo não existe no país. Outros 6% não souberam responder.



Essa é a 2ª vez que a divisão de estudos estatísticos do Poder360 pergunta aos entrevistados sobre preconceito por causa da cor da pele no país. Em pesquisa realizada de 22 a 24 de junho, o percentual dos brasileiros que tinha a percepção de que existe discriminação contra pessoas negras era de 76%. Houve uma alta de 5 pontos percentuais em 4 meses.

No entanto, a proporção dos que não enxergam essa prática no país permaneceu estável.





A pesquisa foi realizada pelo PoderData, divisão de estudos estatísticos do Poder360. A divulgação do levantamento é feita em parceria editorial com o Grupo Bandeirantes.

Os dados foram coletados de 9 a 11 de novembro, por meio de ligações para celulares e telefones fixos. Foram 2.500 entrevistas em 501 municípios, nas 27 unidades da Federação. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. Saiba mais sobre a metodologia lendo este texto.

Para chegar a 2.500 entrevistas que preencham proporcionalmente (conforme aparecem na sociedade) os grupos por sexo, idade, renda, escolaridade e localização geográfica, o PoderData faz dezenas de milhares de telefonemas. Muitas vezes, mais de 100 mil ligações até que sejam encontrados os entrevistados que representem de forma fiel o conjunto da população.

O 1º levantamento foi realizado 4 semanas depois da morte de George Floyd, 1 homem negro de 40 anos. Ele tinha sido acusado de ter tentado pagar uma compra com nota falsa de US$ 20 em 1 supermercado. Em uma ação da polícia de Mineápolis, em Minnesota (EUA), Floyd teve o pescoço prensado com o joelho por 1 policial branco, por 8 minutos e 46 segundos e morreu por asfixia.



A morte desencadeou uma série de atos pelos EUA, Brasil e Europa. Os protestos foram liderados pelo movimento “Black lives matter” (“Vidas negras importam”, em português). Os protestos reacenderam o debate sobre a desigualdade racial e a necessidade de revisionismo histórico.

O caso de George Floyd deu força ainda à atuação de movimentos contra símbolos e estátuas que homenageavam quem teve ligações com o escravagismo. Em várias cidades da Europa, manifestantes se reuniram e derrubaram estátuas de personalidades históricas que têm em suas biografias passagens racistas e escravagistas, o que fez com que as autoridades locais as retirassem. No Brasil, houve poucos atos como esses, mas, se feitos, configurariam crimes contra o patrimônio histórico.

Depois de 4 meses, os protestos diminuíram, mas no Brasil, onde a população é majoritariamente negra, o tema se mantém vivo em debates, principalmente nas redes sociais. Atualmente, de acordo com dados de maio de 2020 compilados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 9,4% da população se autodeclara preta e 46,8% se diz parda. Os brancos somam 42,7% da população.



Além da percepção sobre a existência do racismo no Brasil, o PoderData fez a seguinte pergunta aos entrevistados: “Você diria que tem preconceito contra pessoas negras?”. O resultado do levantamento mostra que 34% dos brasileiros afirmam que sim, consideram ter preconceito contra negros –alta de 6 pontos percentuais em 4 meses, quando 28% tinham essa opinião. Já os que dizem que não somam 57%. A proporção variou negativamente no período.



As perguntas feitas pelo PoderData repetiram exatamente o que o Datafolha indagou aos brasileiros em 1995 sobre preconceito por causa da cor da pele. O levantamento resultou no livro “Racismo Cordial” (eis a introdução – 1 MB).



Quando são analisados os dados dos 2 levantamentos, observa-se que hoje, 25 anos depois, o percentual dos que dizem haver racismo contra negros caiu de 89% para 81%. Só que a soma dos brasileiros que admitem eles próprios serem preconceituosos subiu de 10% para 34%.

Os dados mostram que continua válida a frase cunhada pelo sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) nos anos 1960: “O brasileiro não evita, mas tem vergonha de ter preconceito”. No entanto, a admissão do racismo por parte de 34% da população indica o aumento do reconhecimento do problema social presente no país.



Nesta 6ª feira (20.nov.2020) será o Dia Nacional da Consciência Negra. A data faz referência à resistência e morte de Zumbi dos Palmares, o último dos líderes do Quilombo dos Palmares no Brasil. Os quilombos eram locais onde se fixaram grupos organizados de resistência e enfrentamento à escravidão. O dos Palmares é considerado por estudos historiográficos o maior e mais duradouro (atuou por mais de 100 anos) dos quilombos. Ficava entre os Estados de Alagoas e Pernambuco.



Líder do grupo, Zumbi foi executado em 20 de novembro de 1695, aos 40 anos, pelas forças do bandeirante português Domingos Jorge Velho. Ele foi degolado e teve a cabeça exposta em praça pública, em Recife.

Além de homenagear e reconhecer a luta de Zumbi dos Palmares, na data, movimentos negros buscam evidenciar as desigualdades e violências contra a população preta na sociedade. O nome “Consciência Negra” é o mesmo de 1 movimento anti-apartheid que estava à frente de greves que fragilizaram a política segregacionista na África do Sul em 1973. O movimento era liderado por ativistas como Steve Biko, morto torturado pela polícia em 1972. E, com o lema “Black is beautiful” –adotado à época do movimento negro dos Estados Unidos–, defendia a autoestima da população negra e visava a incentivar a autovalorização dos negros.

Hoje, no Brasil, na semana e no dia da data, atividades culturais, debates e reflexões sobre as implicações do racismo são realizadas em todo o país. A data já era celebrada desde os anos de 1970, mas só foi oficializada em 2011, por meio da Lei 12.519/2011, sancionada pela então presidente Dilma Rousseff (PT). Em alguns Estados (Alagoas, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), leis locais estabeleceram o dia como feriado.



A discussão sobre a classificação de pessoas, reprodução de hierarquias e de diferentes atribuições de valor por causa da cor da pele é ampla e histórica. A escravidão no Brasil perdurou por mais de 300 anos. Negros foram aprisionados, exilados da África. A prática escravagista é considerada intolerável, mas os vestígios do passado e a impregnação do racismo perpetuam de forma direta, estrutural, institucional e na linguística brasileira.

O dia da abolição da escravatura, 13 de maio, não é considerado por movimentos negros uma data para se celebrar. O Brasil foi o último país da América a abolir a escravidão. Antes disso, a história dos negros no país foi marcada por revoltas, como a Rebelião do Engenho de Santana (1789,1821 e 1828), a Revolta dos Malês (1835) e a Balaiada (1838-1841), sem sucesso ante a escravidão.

E, depois da assinatura da Lei Áurea, sancionada pela Princesa Isabel (1846-1921), filha de Dom Pedro II, em 13 de maio de 1888, políticas assistenciais, de integração e afirmativas não foram criadas em prol da população negra no país, marginalizada e presa à cultura escravocrata nos anos seguintes. “A influência da escravidão não se desenraiza num dia”, defendeu o político monarquista e abolicionista Joaquim Nabuco no livro “O abolicionista (1883)”.



Pesquisadores como Juarez Xavier, professor de jornalismo e coordenador-executivo do Núcleo Negro para a Pesquisa e Extensão da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo), lembram que uma mudança significativa no contexto da luta contra a desigualdade e a questão racial só ocorreu após a redemocratização do país. Em 1995, quando foi realizada a pesquisa Datafolha, ele lembra que foi exatamente o mesmo período em que se celebrava o tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares e o governo de Fernando Henrique Cardoso abria espaço para políticas afirmativas para negros.

A dificuldade do desenvolvimento dessas políticas ocorre ainda hoje devido ao negacionismo em relação ao racismo no país, como mostra a pesquisa: 13% acreditam que não existe preconceito no Brasil.

Para o trineto do imperador Dom Pedro II, o príncipe imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, não existe diferença racial no país. “Estão procurando criar esse problema racial, mas não conseguem. Aqui, todos nos damos bem. Aqui no Brasil, todos nós vivemos bem”, disse em live promovida pela Fundação Alexandre de Gusmão, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, em 16 de junho.



A filósofa e escritora Djamila Ribeiro refuta esse entendimento. Para ela, a violência que a população negra sofreu no passado e continua sofrendo hoje no Brasil são romantizadas por meio da adoração à cultura negra. Segundo ela, isso causa uma falsa ideia de que não existe racismo no país.

“A gente fala muito das supostas pontes que nos unem. Todo mundo gosta de samba, de capoeira. As pessoas gostam das culturas negras, mas não se mobilizam quando os jovens negros são assassinados todos os dias no Brasil. É esse cinismo que ainda tenta romantizar ou colocar que somos uma sociedade muito cordial, que estamos muito felizes e nos tratamos bem”, disse em 18 de junho, em entrevista ao Poder em Foco, programa do Poder360 em parceria editorial com o SBT.



Assista (2min1s):



RACISMO X AVALIAÇÃO DE BOLSONARO

O levantamento fez ainda o cruzamento entre o que pensam os brasileiros sobre racismo e como avaliam o trabalho do presidente Jair Bolsonaro. Os entrevistados que mais admitem ser preconceituosos (43%) são os que rejeitam o presidente. Ou seja, avaliam o trabalho de Bolsonaro como “ruim” ou “péssimo”. Essa admissão por esse grupo aumentou 12 pontos percentuais. Há 4 meses, só 31% desse grupo afirmaram ter preconceito por causa da cor da pele.



Esse grupo anti-Bolsonaro também registra a taxa mais elevada (93%) dos que dizem enxergar racismo no Brasil. Somam 93% –alta de 8 pontos, considerando levantamento feito no fim de junho. A diferença entre os que rejeitam o presidente e os que o apoiam e enxergam o preconceito no país é de 20 pontos percentuais.





O governo Bolsonaro atua contra as políticas de reparação, reconhecimento do movimento e de personalidades negras no país. O presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, que preside a fundação desde novembro de 2019, faz diversas declarações que relativizam assuntos relacionados à escravidão e ao racismo no país.

Camargo já chamou o movimento negro de “escória maldita” em uma reunião gravada sem que ele tivesse conhecimento em junho deste ano. O áudio do diálogo foi divulgado pelo jornal O Estado de S.Paulo. Na ocasião, Camargo também disse que Zumbi dos Palmares era “filho da puta que escravizava pretos” e criticou o Dia da Consciência Negra.

“Não tenho que admirar Zumbi dos Palmares, que pra mim era 1 filho da puta que escravizava pretos. Não tenho que apoiar Dia da Consciência Negra. Aqui não vai ter, zero – aqui vai ser zero pra [Dia da] Consciência Negra. Quando eu cheguei aqui, tinha eventos até no Amapá, tinha show de pagode com dinheiro da Consciência Negra. Aí, tem que mandar 1 cara lá, pra viajar, se hospedar, pra fiscalizar… Que palhaçada é essa?”, falou na ocasião.



Após a repercussão de suas falas, a DPU (Defensoria Pública da União) chegou a pedir ao STJ para retirar Sérgio Camargo da presidência da Fundação Cultural Palmares. No entanto, o pedido foi negado.

Em 11 de novembro, Camargo também definiu novas diretrizes para a seleção e publicação, no site da Fundação Palmares, de nomes e biografias das personalidades notáveis negras, que historicamente contribuíram para a formação e desenvolvimento dos valores culturais, sociais e econômicos no Brasil ou no mundo. Segundo ele, a medida visa a “moralizar a lista de personalidades negras”, que será selecionada pela diretoria colegiada da Fundação Palmares.

Agora, só serão feitas homenagens póstumas. Novos nomes serão incluídos na lista, mas outros serão excluídos, entre eles, o de Marina Silva (Rede), ex-ministra do Meio Ambiente e ex-senadora. Para Sérgio Camargo, ela “não tem contribuição relevante para a população negra do Brasil”. Após a repercussão do caso, a Rede Sustentabilidade divulgou nota na qual lembra que Marina Silva “é uma brasileira que tem em seu currículo mais de 60 honrarias: prêmios, títulos, reconhecimentos”. Disse ainda que a opinião de Camargo “não tem a menor relevância para os critérios de quem a reconheceu como digna dos prêmios”.



ESTRATIFICAÇÃO DO PRECONCEITO
O PoderData também apresenta como se dividem as respostas sobre a percepção de racismo e preconceito autodeclarado no Brasil por gênero, idade, escolaridade, região e renda.

Os que menos enxergam a existência do preconceito no país contra a população negra são: homens (16%); pessoas de 25 a 44 anos (20%); pessoas que têm só o ensino fundamental (18%); moradores do Norte (26%); e pessoas que recebem até 2 salários mínimos (18%).



Os que mais admitem ser racistas (dentro dos 34%) são: homens (36%); as pessoas de 60 anos ou mais (42%); moradores do Norte (45%); os que têm só o ensino médio (38%) e os que recebem mais de 10 salários mínimos (46%).





RACISMO ESTRUTURAL EM DADOS

Na Síntese de Indicadores Sociais 2020 (5MB), publicada em 12 de novembro, o IBGE analisa as condições de vida da população brasileira, com base em dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de 2019 e de outras fontes oficiais de informação.

O estudo revela desigualdades estruturais, evidenciadas em relações de trabalho que ainda mantêm grupos populacionais como pretos ou pardos, na informalidade ou no desemprego. Um dos principais indicadores do mercado de trabalho, a taxa de desocupação, foi de 9,3% para brancos, e 13,6% para pretos ou pardos em 2019.

Entre pessoas ocupadas, o percentual de pretos ou pardos em ocupações informais chegou a 47,4%, enquanto entre os trabalhadores brancos foi de 34,5%. O rendimento-hora de brancos com nível superior era de R$ 33,90, enquanto pretos e pardos com o mesmo nível de instrução ganhavam R$ 23,50 por hora trabalhada.



Entre as pessoas abaixo da linha de pobreza, 73,6% eram de cor preta ou parda e 25,4% eram brancas.

A população ocupada de cor ou raça branca ganhava em média 73,4% mais do que a preta ou parda. Em valores, significava uma renda mensal de trabalho de R$ 2.884 frente a R$ 1.663.



Os dados indicam ainda que 45,2 milhões de pessoas residiam no ano passado em 14,2 milhões de domicílios com algum tipo de inadequação. Desta população, 13,5 milhões eram de cor branca e 31,3 milhões pretos ou pardos.

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