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15/10/2020 10:30

Se Biden se eleger, Bolsonaro terá problemas, mas Brasil vai recuperar sua estatura, diz ex-embaixador americano no Brasil

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2259 visitas - Fonte: Valor Econômico

Em pouco mais de quinze dias os americanos podem eleger o democrata Joe Biden como novo presidente dos EUA, se pesquisas de intenção de voto se confirmarem. A mudança trará uma grande dor de cabeça para o Brasil de Jair Bolsonaro, avalia Thomas Shannon, ex-embaixador americano do Brasil. “A agenda do Partido Democrata não é favorável ao presidente Bolsonaro”, diz em entrevista ao Valor, ao citar temas ambientais e LGBTQ. “As políticas do partido [democrata] são diferentes das de Bolsonaro está. E isso criaria problemas na relação com o Brasil.”



Shannon argumenta, contudo, que Biden sabe o valor estratégico do Brasil para interesses do governo americano. E afirma que os EUA poderiam trabalhar com o Brasil para resolver uma serie de questões. De certa forma, o Brasil poderia assim recuperar estatura e participação internacional.

Em entrevista por vídeo, ele afirmou ainda que a diplomacia de Donald Trump enfraqueceu os EUA frente ao mundo e que isso estará em jogo na eleição de novembro. “Prejudicou os EUA globalmente, preocupou nossos aliados, encorajou nossos adversários, mas acelerou o debate sobre como precisamos nos relacionar com o mundo”, disse. “Nessa eleição vamos ver pessoas votando não apenas sobre o que está acontecendo nos EUA mas também sobre como somos vistos externamente.”



Ex-embaixador em Brasília de 2010 a 2013 e ex-subsecretário de Estado, Shannon é uma das maiores autoridades americanas em América Latina. Atualmente ele trabalha com assessor sênior de política externa no escritório de arbitragem internacional Arnold & Porter, em Washington. Diz sentir “saudade” de falar português.

Valor: O que muda para a América Latina com a eleição dos EUA?

Thomas Shannon: Se o presidente Trump for reeleito, veremos mais do mesmo. Ou seja, relações pessoais, que visam certos jogos e têm estrutura estratégica limitada. No caso do Brasil, o presidente Trump e o presidente Bolsonaro têm uma relação pessoal forte. Isso é importante no mundo de Trump. Mas não o impediu de impor tarifar, restrições a viagens e inúmeras coisas. Trump está sempre tentando criar relações que o ajudem.

Se Biden for eleito, obviamente o interesse dos EUA ainda estará no centro da diplomacia americana. Mas haverá compreensão plena da importância de nosso continente e entendimento da importância dos principais parceiros continentais, como o Brasil.

No início de seu segundo mandando, Barack Obama designou ao então vice-presidente Biden a responsabilidade de supervisionar a relação dos EUA com a América Latina. E Biden imediatamente focou no Brasil, para onde viajou e construiu uma relação com a então presidente Dilma Rousseff e seu gabinete. Tratou de temas importantes para os dois países, não apenas em termos de relações bilaterais, mas num contexto global.

Então Biden já entende a importância do Brasil e da América Latina, não precisa que alguém explique para ele. E isso é importante agora, porque há uma fragmentação na região, muito por causa da covid-19 e das respostas nacionalistas a ela. Também acho que veremos grande foco nos bancos multilaterais de desenvolvimento para ajudar na recuperação financeira e econômica pós-pandemia, e teremos a oportunidade de promover um desenvolvimento ecologicamente sustentável, com impacto nas emissões de carbono e na mudança climática.

Com Biden haveria uma abordagem mais estratégica em relação à América Latina e maior entendimento sobre os países da região, especialmente o Brasil.



Valor: Recentemente, o sr. falou em congelamento das relações bilaterais, caso Biden vença. Por quê?

Shannon: Não sei se usei a palavra congelar. Mas o que tentei mostrar é que, apesar de Biden conhecer o Brasil e entender que tem um valor estratégico para os EUA, as políticas do Partido Democrata não são favoráveis ao presidente Bolsonaro. Seja em temas ambientais, direitos de povos indígenas ou sobre questões sociais, como temas LGBTQ ou mulheres, as políticas do partido estão em um lugar diferente do que Bolsonaro está. E isso criaria problemas na relação. Acho que Biden será cuidadoso em como se envolver e vai querer deixar claro que não aceita aspectos da agenda política de Bolsonaro, que é vista de maneira muito negativa pelo Partido Democrata.



Valor: Como seria essa abordagem mais estratégica com o Brasil?

Shannon: O Brasil é a segunda maior democracia do nosso continente, a segunda maior economia, o segundo maior exportador de comida no mundo. Os EUA, por meio de sua relação com o Brasil, podem fazer muito para estabilizar a região, para solucionar os problemas que vimos na Venezuela, o impacto da covid-19 em toda a região. Mas também com o Brasil se pode construir uma relação com a União Europeia, especialmente em comércio, programas de desenvolvimento e cooperação na África na área de saúde pública, agricultura e produção de alimentos. E, por causa da relação do Brasil com China, Japão, Coreia e Austrália, pode-se criar uma dinâmica interessante que nos permite trabalhar com o Brasil em temas relacionados à Ásia e com comércio global. Quanto mais avançamos no século 21 e vemos o impacto da mudança climática, haverá partes do mundo que enfrentarão problemas reais de segurança alimentar. E acho que o Brasil e os EUA juntos, ao lado de Canadá, Argentina e outros grandes produtores agrícolas, podem ter um papel importante em resolver isso.

Valor: A relação dos EUA com a Europa mudou nos últimos anos. São aliados, mas estão separados. Esse descolamento é também o caso dos EUA com a América Latina?

Shannon: Sim. O presidente Trump apenas pensa diferente dos presidentes anteriores. Com George W. Bush houve negociações do Nafta e com Clinton sua ratificação. No governo Obama houve uma progressão constante. Trump chega ao governo e pinta o México de maneira muito negativa e com propósito de construir um muro para separar os países.

Parte da abordagem de Biden é sobre construir estabilidade política de longo prazo e crescimento econômico no México. Enquanto Trump se mostrou disposto a fazer alguns gestos ou concessões necessárias para assegurar vantagens estratégicas de longo prazo.



Valor: México e Venezuela são prioridades dos EUA na região. Essa configuração tende a continuar?

Shannon: Acredito que vamos voltar a um entendimento mais tradicional da América do Norte como o lar geopolítico dos EUA e a necessidade de se construir uma relação com ambos os países com os quais temos fronteiras. E isso será importante para aumentar a nossa defesa anti-mísseis com o US Northern Command e será necessário para aumentar a proteção de nossas fronteiras, para lidar com tráfico de drogas e humano e também controlar doenças e pandemias. Queremos fazer das fronteiras lugar de relativa fluidez de movimento de bens e serviços, e não entrave entre dois mercados.

Biden verá o México de forma diferente. E isso inclui envolvê-lo na questão centro-americana, em um esforço para garantir que os EUA não enfrentarão uma crise migratória no início de seu mandato. Estará focado em atacar redes de tráfico de pessoas, mas também solucionar fatores econômicos que levam tantas pessoas a deixar a América Central para os EUA.

Em relação à Venezuela, Biden seria tão duro quanto Trump com o governo Maduro. Mas acharia uma maneira de trabalhar com nossos parceiros na região e organizações internacionais para lidar com a crise humanitária dentro da Venezuela. O governo Trump fez a crise pior com sua política de sanções, especialmente as sanções contra o setor de petróleo e gás e as sanções secundárias. E o impacto na economia tem sido tremendo. A imigração venezuelana, que a covid-19 interrompeu, é similar à imigração da Síria para a Europa, e seu potencial de desestabilização é grande. Creio que Biden entenderá a Venezuela não apenas como uma questão da Venezuela, mas um assunto regional, e tentará achar maneiras de tratar a crise humanitária logo no início, enquanto pressiona por mudança democrática.



Valor: A abordagem atual em relação à Venezuela é correta?

Shannon: Pessoalmente, discordo da política de sanções. Sanções contra indivíduos envolvidos em violações de direitos humanos ou corrupção são corretas. Mas o esforço de pressão máxima não funcionou, falhou. E tem causado consequências econômicas muito negativas, que prejudicaram o povo venezuelano. Precisamos encontrar uma maneira para lidar com isso. E, ao mesmo tempo, reconhecer que o governo da Venezuela é tão marcado por seu comportamento antidemocrático e repressão política que não terá como se recuperar aos olhos do povo venezuelano ou globalmente.

Valor: O sr. vê o governo Maduro como autoritarismo ou ditadura?

Shannon: Autoritasimo, com certeza. Mas ditadura é uma palavra forte, porque implica um ditador. E Maduro está mais para o secretário-geral do Politburo. Seu partido político tem muitas pessoas poderosas, e ele é o líder, mas não é o único importante.

Mas é um erro ficar preocupado com definições. O importante é ressaltar que os venezuelanos não estão tendo oportunidade de escolher sua liderança política. E isso precisa mudar. É preciso uma saída democrática e pacífica da crise na qual a Venezuela se encontra.

Valor: Há o risco de uma invasão militar na Venezuela?

Shannon: Não. A pergunta é: quem faria a invasão? Os EUA já estão em guerras no Afeganistão e no Iraque. Temos tropas americanas em risco na Síria, próximas de tropas russas e iranianas. Estamos comprometidos na península coreana e no Japão, e podemos ter de agir a qualquer momento, se a Coreia do Norte decidir lançar mísseis contra a Coreia do Sul ou o Japão. Temos na Ucrânia os russos, que já anexaram a Crimeia, e interferem nos Bálcãs e nos países bálticos. E, nesse contexto, os militares americanos poderiam ser convocados a qualquer momento para guerra na Crimeia, na Síria ou na Europa Central. Uma ação militar americana na Venezuela seria, portanto, altamente irresponsável.



Valor: O que seria diferente com Biden em relacao à Venezuela? E o que países vizinhos e os EUA deveriam fazer para ajudar o país?

Shannon: Não sou parte da campanha de Biden, e não posso falar com certeza. Mas acredito que ele manterá pressão sobre o governo Maduro e tentará reviver uma abordagem multilateral na região por meio do Grupo de Lima e da Organização dos Estados Americanos (OEA). Mas, para isso, mudará de um foco de pressão máxima para resolver questões humanitárias, proteger os países da região de uma grande crise na Venezuela, que estamos vendo e continuaremos a ver por um tempo. E também tentando encontrar maneiras de envolver parceiros de outros lugares, especialmente na União Europeia, que agora respalda a abordagem dos EUA em relação à Venezuela. E tentando usar as Nações Unidas, especialmente o Conselho de Direitos Humanos, para fazer maior pressão, mas reconhecendo que a solução para a Venezuela tem de vir de dentro da Venezuela. E isso para mostrar que, a essa altura, pressão internacional por si só não funciona. Tem de haver uma maneira de empoderar os venezuelanos. E isso não será fácil. Mas é o que tem de acontecer.

Valor: EUA e alguns países da Europa veem a presença da China com preocupação. Devemos nos preocupar com a influência da China na América Latina?

Shannon: A América Latina se globalizou nas últimas décadas. Grandes economias como o Brasil, que produz minérios, comida, energia, são muito atrativas para a China. E, portanto, é natural que países como Brasil e China construam uma relação comercial. A China tem buscado relações desse tipo na América do Sul, com Brasil, Argentina, Peru, Chile, Equador, Colômbia. E esse tipo de relação, na verdade, teve um papel muito importante na crise financeira global de 2008-2009, ajudando países como o Brasil a atravessar aquele momento com pouco prejuízo. Sem forte presença da China na economia, esses países sofreriam muito. Além disso, a China ultrapassou os EUA como principal parceiro comercial desses países.

Dito isso, a relação comercial e de investimento que os EUA oferecem é mais do que a China oferece. A China compra produtos primários, minérios, comida, petróleo e gás. Os EUA também compram e vendem itens de valor agregado. E, no caso do Brasil, poderiam ser aeronaves, aparelhos médicos, aço. O Brasil tem áreas de sua economia que precisam de investimento, e isso vem dos EUA, não da China.

Os EUA fariam melhor articulando sua relação econômica e a importância disso no Brasil e na América Latina, mas também podem tentar por meio da diplomacia uma maneira mais conquistadora de responder à China na região. Os chineses são muito bons em identificar o que querem, ir atrás das oportunidades de negócio nos países, um a um, dividindo-os, e não permitem uma abordagem compartilhada. Os interesses econômicos e políticos da China são muito claros. E esse interesse, que agora implica um papel central em construir a infraestrutura 5G, mostra como a China transformou uma aparente relação comercial e tenta se firmar na estrutura das economias da região.

Os EUA podem ter um papel maior do que ficar criticando a relação com a China. Poderiam oferecer alternativas, trabalhar para buscar soluções e ajudar países latino-americanos a construir relações com outros fornecedores, especialmente na Europa. Isso ainda não aconteceu. Tenho confiança na diplomacia brasileira, em empresárias e empresários brasileiros para administrar essa relação em beneficio do Brasil.



Valor: Até aonde crê que os EUA farão do 5G uma prioridade? Isso é realmente estratégico ou mais um instrumento de pressão?

Shannon: Acho que é um grande componente estratégico. Ficamos muito preocupados se a Huawei construiria a infraestrutura 5G e ficaremos preocupados com o que colocar lá, que tipo de informação colocamos. Isso realmente pode impactar a cooperação militar, de inteligência, comercial e industrial. Temos de ter garantias de que a informação que estamos transmitindo estará protegida.

Valor: Então essa disputa sobre o 5G deve continuar se Biden vencer?

Shannon: Sim. Será expressada de outra maneira e se buscarão diferentes tipos de solução, mas a preocupação continuará.

Valor: Qual consequência de médio prazo que a disputa EUA-China pode ter para a América Latina?

Shannon: Tudo depende de como EUA e China decidirem desenvolver a relação entre essas duas grandes economias. Se formos para um grande confronto, um grande conflito, será ruim para todo mundo, incluindo EUA e China. A diplomacia americana e a diplomacia chinesa deveriam tentar evitar um grande confronto e achar uma maneira de criar estabilidade no mundo e promover um tipo de livre comércio e investimentos que poderia beneficiar ambos os países e o mundo. E acho que um país como o Brasil pode desempenhar um papel muito importante porque é um país grande, uma grande democracia e tem relações com EUA e China, que o permitem falar de forma livre com ambos. Poderia funcionar não como mediador, mas um país que nos lembra que EUA e China precisam encontrar um modus vivendi.



Valor: É possível uma solução com benefícios para EUA e China? Trump parece achar que não.

Shannon: Sim, com certeza. Mas essas coisas nunca são fáceis. E a China se comporta mal, sinceramente. De fato, rouba propriedade intelectual, entra em joint-ventures com outras empresas tomando práticas de produção e capacidades e, em seguida, expulsando-as do país. Ambientalmente, tem uma trajetória muito ruim. Sua trajetória em direitos humanos preocupa, para dizer o mínimo, se olharmos o que está acontecendo na Província de Xinjiang, com os uigures. São 800 mil pessoas vivendo em campos de reeducação, é quase um genocídio cultural. E também o que aconteceu recentemente em Hong Kong.

Essas ações e comportamentos preocupam, porque dão uma ideia dos valores da China neste momento. Não acredito que os países do continente e, em particular os EUA, que foram construídos sobre democracias, sociedades abertas e respeito aos direitos humanos, realmente queiram fazer parte disso. Portanto, quanto mais a China se comportar assim, mais difícil será encontrar uma maneira mutuamente benéfica.

Valor: Qual avaliação faz da diplomacia do governo Trump?

Shannon: Os EUA estão no meio de uma grande transformação política. Estamos reconstruindo os partidos políticos desde a base e, nesse processo, tendo um debate nacional sobre qual é e qual deveria ser o propósito dos EUA. O presidente Trump chegou ao poder convencido de que os EUA talvez tivessem cometido grandes erros em sua política externa por meio de acordos de livre comércio, compromissos de segurança, longo envolvimento em guerras no Afeganistão e no Iraque. E seu objetivo foi sair de todos eles. Ele, de fato, reformulou como os EUA se relacionam com o mundo. E alertou o mundo de que nós estaremos preocupados com os nossos problemas e os de mais ninguém. E de que cabe aos países se preocuparem com seus próprios problemas.

É um discurso sobre como os outros países tiram vantagem de nós, de alguma maneira. Acredito que isso prejudicou os EUA globalmente, preocupou nossos aliados, encorajou nossos adversários. Mas também acelerou o debate dentro dos EUA sobre como precisamos nos relacionar com o mundo. E acho que vamos ver nessa eleição as pessoas votando não apenas sobre o que está acontecendo nos EUA, mas também sobre como os EUA são vistos externamente. Com Biden há uma grande oportunidade para o povo americano de reconstruir um consenso sobre qual o é o objetivo dos EUA no mundo e como precisamos estar empenhados globalmente e trabalhar por meio de alianças e parceiros para alcançar metas comuns e compartilhadas.

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